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21/07/2024

2 Recordo Ainda ... Mário Quintana





Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai!…
Que envelheceu, um dia, de repente!…


Mario Quintana,
in Nariz de Vidro



02/06/2024

5 O Laço e o Abraço - Mário Quintana





Meu Deus! Como é engraçado!
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.

É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo,
no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando...
devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.

Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita.

Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,
deixando livre as duas bandas do laço.
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.

E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso...
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!


de Mário Quintana



20/04/2024

6 Trova - Quem as suas mágoas canta - Mário Quintana




Quem as suas mágoas canta
Quando acaso as canta bem
Não canta só suas mágoas,
Canta a de todos também.


Mário Quintana
In A cor do invisível, 1989




05/08/2023

4 As Estrelas - Mário Quintana





Foram-se abrindo aos poucos as estrelas...
De margaridas lindo campo em flor!
Tão alto o céu!... Pudesse eu ir colhê-las...
Diria alguma si me tens amor...

Estrelas altas! Que me importam elas?
Tão longe estão!... Tão longe deste mundo...
Trêmulo bando de distantes velas
Ancoradas no azul do céu profundo...

Porém meu coração quase parou,
Lá foram voando as esperanças minhas
Quando uma, dentre aquelas estrelinhas,

Deus a guie! Do céu se despencou...
Com certeza era o amor que tu me tinhas
Que repentinamente se acabou!...


Mario Quintana,
in A cor do invisível






03/09/2022

9 Trova





Trova: soneto do povo,
Flor de nostálgico encanto...
Todo o infinito do amor
Numa só gota de pranto.


MARIO QUINTANA
In A cor do invisível, 1989




02/07/2022

10 A Viagem - Poema de Mário Quintana





Como é bela uma asa em pleno vôo...
Uma vela em alto-mar...
Sua vida toda ela! - está contida
Entre o partir e o chegar...


Mário Quintana
In A cor do invisível, 1989





11/12/2021

6 Pausa - Mário Quintana





Oh! todo o sossego e lucidez das madrugadas,
quando o último grilo já parou seu canto e ainda
não se ouviu o canto do primeiro pássaro…


Mário Quintana
Caderno H




11/09/2021

8 O Poeta - Mário Quintana





Venho do fundo das Eras
Quando o mundo mal nascia...
Sou tão antigo e tão novo
Como a luz de cada dia!  



Mário Quintana




20/07/2020

10 O Silêncio





Há um grande silêncio que está à escuta...

E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!

E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta... 
e cala.”



Mário Quintana
Em “Esconderijos do Tempo



23/05/2020

5 Os degraus - Poema de Mário Quintana




Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...



Mário Quintana in (Báu de Espantos)




02/12/2018

3 A Dança





A menina dança sozinha
por um momento.

A menina dança sozinha
com o vento, com o ar, com
o sonho de olhos imensos...

A forma grácil de suas pernas
ele é que as plasma, o seu par
de ar
de vento,
o seu par fantasma...

Menina de olhos imensos,
tu, agora, paras,
mas a mão ainda erguida

segura ainda no ar
o hastil invisível
deste poema!


Mário Quintana


 

24/01/2018

0 Presença - Poema de Mário Quintana





É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frémito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
subtilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


Mario Quintana



0 A Viagem - Poema de Mário Quintana





Como é bela uma asa em pleno vôo...
Uma vela em alto-mar...
Sua vida — toda ela! — está contida
Entre o partir e o chegar...


Mário Quintana, in a Cor do invisível




0 Oração - Poema de Mário Quintana




Dai-me a alegria
do poema de cada dia.
E que ao longo do caminho
às almas eu distribua
minha porção de poesia
sem que ela diminua...
Poesia tanta e tão minha
que por uma eucaristia
possa eu fazê-la sua.
"Eis minha carne e meu sangue!"
A minha carne e meu sangue
em toda a ardente impureza
deste humano coração...
Mas, ó Coração Divino,
deixai-me dar de meu vinho,
deixai-me dar de meu pão!
Que mal faz uma canção?
Basta que tenha beleza...


Mário Quintana




0 O Vento e a Canção - Poema de Mário Quintana





Só o vento é que sabe versejar:
Tem um verso a fluir que é como um rio de ar.

E onde a qualquer momento podes embarcar:
O que ele está cantando é sempre o teu cantar.

Seu grito é o grito que querias dar,
É ele a dança que ias tu dançar.

E, se acaso quisesses te matar,
Te ensinava cantigas de esquecer

Te ensinava cantigas de embalar...
E só um segredo ele vem te dizer:

- é que o vôo do poema não pode parar.



Mário Quintana


0 Canção da Primavera - Poema de Mário Quintana




Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas .
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando .

Catavento enlouqueceu ,
Ficou girando , girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando .

Dancemos todos ,dancemos,
Amadas , Mortos , Amigos ,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo ...

Ate que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido !



Mário Quintana    


0 As Mãos que Dizem Adeus




As mãos que dizem adeus são pássaros
Que vão morrendo lentamente...



Mário Quintana

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